Carne
"Para os homens, o público e o político, seu santuário. Para as mulheres, o privado e seu coração, a casa." (Michelle Perrot)
Essa dissimetria entre os sexos, discutida por Michelle Perrot no livro Mulheres públicas, e a conseqüente opressão sobre o sexo feminino, é um dos pilares do processo criativo CARNE.
Construído a meio caminho entre uma leitura dramática e uma encenação clássica, esta intervenção teatral põe em cena duas mulheres que apresentam estatísticas, representam pequenas histórias, mostram bonecas infantis, pintam-se obsessivamente, enunciam trechos bíblicos e cantam músicas discriminatórias enraizadas no imaginário popular brasileiro. Além disso, imagens publicitárias e de obras de arte contemporâneas, são projetadas numa grande tela, tudo para revelar a profunda desigualdade entre os sexos que se manifesta nos espaços público e privado.
Inspirando-se na autora austríaca Elfriede Jelinek, prêmio Nobel de literatura em 2004, em notícias de jornais, estatísticas de violência contra a mulher, em textos da historiadora Michelle Perrot, CARNE discute as relações profundas entre patriarcado e capitalismo, mostrando, através de procedimentos épicos ou “pós-dramáticos” (segundo a expressão de Hans-Thies Lehmann), o panorama da opressão de gênero e a situação específica da violência contra as mulheres no Brasil.
O projeto Carne inclui uma série de debates abordando temas como o feminismo, o marxismo, o patriarcado e as possibilidades de atuação do teatro em relação aos grandes problemas sociais, inaugura um novo momento da Kiwi Companhia de Teatro, marcado por parcerias com organizações não-governamentais. Esta nova situação ancora ainda mais o trabalho do grupo na realidade do país, ampliando a interlocução com públicos normalmente distantes do teatro e tratando de temas que dificilmente são levados à cena.
O espaço de apresentação é composto pela tela de projeção, uma bancada com objetos, outra bancada com os instrumentos musicais e por alguns elementos cênicos distribuídos pelo espaço. A encenação pede que não haja separação rigorosa entre platéia e palco.
HISTÓRICO DO TRABALHO
O trabalho foi apresentado, ainda em processo, e sempre seguido de debate (participaram grupos de mulheres como SOF e ECOS), no Instituto Pólis, em junho de 2007, no Centro Cultural da Juventude, em 1º de novembro de 2007, dentro do projeto "Conhecimento e Cultura Livres", com apoio do Minc/Petrobrás, e na Mostra Sesc de Artes, no Sesc Consolação, seguido de debate com a filósofa e professora da UNESP Isabel Loureiro, em 14 de novembro de 2007, com o apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.
FICHA TÉCNICA
Roteiro, direção, concepção do espaço: Fernando Kinas
Assist. de direção, concepção de luz: Fabio Salvatti
Elenco: Márcia Bechara, Fernanda Azevedo
Direção e execução musical: Eduardo Contrera
