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MISÉRIA. Reflexão sobre o Prêmio Shell de Teatro 2014.

Repercussão do Prêmio Shell concedido a Fernanda Azevedo.

MISÉRIA. Reflexão sobre o Prêmio Shell de Teatro 2014.

Nunca más!

Miséria

A 26ª edição paulistana do Prêmio Shell de Teatro, em março de 2014, provocou alguma discussão em função do discurso da atriz Fernanda Azevedo, que recebeu o prêmio de interpretação por seu trabalho em Morro como um país – Cenas sobre a violência de Estado, criado pela Kiwi Companhia de Teatro.

O discurso em questão, além dos agradecimentos - de praxe, mas também sinceros - à comissão julgadora, da qual fizeram parte pequisadores de teatro que merecem nosso respeito, e às demais concorrentes ao prêmio de melhor atriz, fez referência à personagem Antígona, para quem “passado abandonado jamais se torna passado” e, como finalização, citou algumas linhas de um artigo do escritor uruguaio Eduardo Galeano, em que ele analisa a colaboração ativa da Shell com a ditadura nigeriana em meados dos anos 1990. Eis o trecho citado: “No início de 1995, o gerente geral da Shell na Nigéria explicou assim o apoio de sua empresa à ditadura militar nesse país: 'Para uma empresa comercial, que se propõe a realizar investimentos, é necessário um ambiente de estabilidade. As ditaduras oferecem isso.'”

Morro como um país, trabalho cênico pelo qual a atriz recebeu a premiação, discute o conceito de “estado de exceção permanente”, as violências praticadas pelo Estado, as ditaduras do cone-sul (com referências à ditadura dos coronéis na Grécia e ao genocídio em Ruanda) e o papel da arte e da cultura diante de graves crises sociais. Em uma das nossas cenas mencionamos a Ultragás,  empresa dirigida nos anos 1960 por Henning Boilesen, que apoiou e financiou a ditadura civil-militar brasileira. Na cena a Ultragás representa, sem prejuízo da sua responsabilidade pela colaboração direta com a ditadura, o grande empresariado, nacional e internacional, que se associou ao terrorismo de Estado.

Ou seja, investigar e denunciar, por todos os meios, a conivência entre empresas e regimes ditatoriais, fazem parte do nosso trabalho. No caso da Shell, além do apoio à ditadura nigeriana, que resultou na condenação da empresa e consequente pagamento de uma compensação de 15,5 milhões de dólares aos familiares de ativistas assassinados, há material consistente sobre sua conivência com a ditadura civil-militar brasileira, o que, infelizmente, não consistia exceção entre as grandes corporações empresariais, comerciais e financeiras que atuavam na época.

Até agora, quase nada sobre estes fatos foi publicado na imprensa e nas redes sociais. Fala-se, no entanto, sobre a “incoerência” da atriz em criticar a Shell e aceitar o prêmio, incluindo o valor em dinheiro, oito mil reais. Para os moralistas de plantão, ciosos em denunciar esta abominável contradição e rápidos em apontar o dedo, nós faremos outra citação, desta vez de Robert Kurz. O trecho foi utilizado, há alguns anos, no programa de outro trabalho cênico do grupo, teatro/mercadoria #1: “Faz parte da dialética do pensamento e da ação emancipatórios que a crítica do dinheiro custe dinheiro. Toda a circulação é burguesa, mas a crítica da forma burguesa, incluindo a própria circulação, tem de abrir caminho através da circulação, porque nem sequer existe outra possibilidade de divulgar os conteúdos da crítica a uma escala maior. Temos noção das contradições que se encontram associadas a esta relação entre a forma [Kurz refere-se à revista EXIT!, portanto, uma mercadoria, editada por ele] e o conteúdo (a crítica da forma da mercadoria por parte da EXIT!). A necessidade de nos debruçarmos sobre os problemas que daí resultam faz-se sentir até ao cerne das situações relacionais do nosso contexto. Isso não altera em nada o fato de que precisam ser financiadas as atividades da EXIT!, que, para além da edição da revista teórica, incluem a manutenção do website, a organização de seminários e encontros de coordenação etc..”

Não se trata de convencer aqueles que pensam de outra forma, inclusive porque muitos não avançam argumentos, mas apenas invectivas e frases que misturam preconceitos de classe e desonestidade intelectual. Sobre o escritor e ativista ambiental Ken Saro-Wiwa e o povo Ogoni; sobre as violações repetidas aos direitos humanos praticadas pelas grandes corporações, ontem e hoje!; sobre a infâmia da não punição de assassinos e torturadores da ditadura brasileira; sobre a atuação genocida da PM decretando a pena de morte para pobres e negros nas periferias, herança da “revolução redentora” de 64: nada. Silêncio. Mais vale fazer analogias simplistas com o convidado para jantar que critica a refeição servida (que grande tirada, hein?). Ou ainda mencionar a suposta insignificância da atriz e da peça porque o autor do comentário não as conhecem. Nossas desculpas por não nos submetermos ao circuito chique do teatro paulistano. Houve ainda aqueles que argumentaram (sic) que fatos antigos não merecem ser mencionados, já que o episódio nigeriano remonta há quase duas décadas. De fato, vamos esquecer a escravidão, o holocausto, o golpe militar e até mesmo a data de aniversário das nossas avós, lá se vão tantos anos, afinal.

Em 1847, Marx publicou Miséria da filosofia, ironizando uma obra de Proudhon (Filosofia da miséria) e assentando as bases de uma nova concepção de história. Nosso tempo é de uma inacreditável miséria. Não custa lembrar que cerca de um bilhão de pessoas passam fome todos os dias. Mas além da gravidade deste fato, também é miserável saber que muitos que fazem três refeições diárias são capazes de negar o direito à crítica e incapazes de enxergar ou denunciar o modelo social em que vivemos. É miserável constatar que muitos justificam seu pequeno conforto, mas não reconhecem a legitimidade daqueles que o criticam. Miserável também é a situação da cultura no país, refém de orçamentos irrisórios, leis de renúncia fiscal e estratégias de marketing empresarial relacionadas às indústrias criativas e aos novos modelos de negócios. Assim como é miserável ler comentários espirituosos sobre o nome do nosso grupo (uma sigla, aliás, caso alguém se interesse) diante da absoluta insensibilidade com a miséria, em todos os sentidos da palavra, que nos assola.

Nada disso, no entanto, é novo. Como não é novo apoiar e dar golpes militares, manipular informações e ideias, torturar as palavras e oficializar o cinismo, para manter, ampliar ou readquirir privilégios. Como disse o presidente da Shell, no lugar da luta de classes, precisamos todos de um “ambiente de estabilidade”, não é verdade?

Kiwi Companhia de Teatro

www.kiwiciadeteatro.com.br

São Paulo

23/03/2014

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